sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Paradoxos do nosso tempo

Hoje temos edifícios mais altos, mas pavios mais curtos...
Temos auto-estradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos...
Gastamos mais, mas temos menos...
Compramos mais, mas desfrutamos menos...
Temos casas maiores e famílias menores...
Temos mais conhecimento e menos poder de julgamento...
Temos mais medicina e menos saúde...
Hoje bebemos demais, fumamos demais, gastamos de forma excessiva, rimos de menos, dirigimos rápido demais, nos irritamos facilmente...
Ficamos acordados até tarde, acordamos cansados demais...
Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores...
Falamos demais, amamos raramente e odiamos com freqüência...
Aprendemos a ganhar a vida, mas não vivemos essa vida...
Fazemos coisas maiores, mas não coisas melhores...
Limpamos o ar, mas poluímos a alma...
Escrevemos mais, mas aprendemos menos...
Planejamos mais, mas realizamos menos...
Aprendemos a correr contra o tempo, mas não a esperar com paciência...
Temos maiores rendimentos, mas menos padrão moral...
Temos avanços na quantidade, mas não na qualidade...
Esses são tempos de refeições rápidas e digestão lenta..
De homens altos e caráter baixo...
De lucros expressivos mas relacionamentos rasos...
Mais lazer, mas menos diversão...
Maior variedade de tipos de comida, mas menos nutrição...
São dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moralidade também descartável e pílulas que fazem tudo: alegrar, aquietar, matar...

colaboração: Leonardo Menezes


Via [ PavaBlog ]

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Mais inquietações

“E quem poderia reconhecer o Rei daquele reino? Ele não tem formosura nem beleza. Suas roupas são aquelas que encontramos num brechó. Não faz a barba há semanas. Cheira a mortalidade. Temos romantizado tanto seu estado deplorável que a única coisa que conseguimos captar são ecos da maneira como ele escandalizou seu tempo, de como os discípulos de João Batista estavam horrorizados quando perguntaram: ‘É você aquele que deveria vir?’; ou na pergunta de Pilatos: ‘Você é o Rei dos judeus?’, numa roupa larga, de boca aberta, ou no humor negro da placa pregada sobre sua cabeça, escrita em três idiomas para que ninguém dissesse que não entendeu.”
(Frederick Bueghner)



Observo com um pessimismo no estilo Schopenhauer a maneira como nós, cristãos, caminhamos na contramão do Evangelho que foi pregado efusivamente por Jesus.

Quando Ele iniciou o seu ministério, o quadro encontrado foi: judeus vivendo uma vida religiosa baseados em três práticas formais: esmolas, jejuns e orações. Jesus apontou outro caminho: amor, graça e liberdade, onde o que estava em jogo não era o que definitivamente você fazia, mas, a nobreza estava em quais motivações estava baseada a sua ação, que mostrava se as pessoas agiam por amor, companheirismo, amizade ou simplesmente para serem vistos, apontados, lembrados ou porque a prática religiosa exigia tais ações.

Hoje, quase dois mil anos depois da morte de Jesus, cometemos os mesmos equívocos. Nossas práticas mudaram é verdade, mas insistimos em viver um evangelho pragmático, cuja tese fundamental é que ele seja útil, e nos propicie alguma espécie de êxito e satisfação pessoal. Infelizmente, este evangelho utilitário é o que enche as igrejas do nosso país. Desde o advento da “teologia da prosperidade”, empurrados pelo “Sonho americano de vida” , a maioria dos cristãos sonham em ascender socialmente, ter dinheiro, carros e empresas, e Deus é utilizado com suposto aliado nessa “troca”. Perdemos nossa identidade cristã na busca insana do ter e do ser, e com isso, nossa visão de reino é altamente comprometida quando assumimos valores e princípios que em nada se parecem com aquilo que Jesus e seus apóstolos viveram na Palestina do início da era cristã.

Nossa religiosidade se resume no esforço de pedir a Deus que compense as nossas distorções pessoais, “premiando” o maior número possível de filhos com favores especiais. Repete-se nos sermões que “Deus é bom e não deixará que os seus filhos mendiguem o pão”. Mais sejamos sensatos, os fatos nos mostram uma realidade muito diferente disto: quantos cristãos não morrem diariamente nos corredores de hospitais públicos a espera de leitos ou de condições humanas para atendimento? Ou ainda, quantos cristãos não povoam as favelas, com suas casas sustentadas em ribanceiras e com esgotos a céu aberto? Quantos cristãos não se encontram no nordeste vivendo as conseqüências da seca, andando quilômetros por um balde de água barrenta dependendo do assistencialismo dos coronéis ou de uns poucos trocados de algum programa do governo? Quantos cristãos não são residentes de pontes, cortiços dos grandes centros? Seria apenas a falta de fé destas pessoas que as colocam nestas situações? Acredito que não, afirmo com toda certeza que tais têm mais fé do que todos nós juntos, mas a realidade cruel mostra que num mundo como o nosso, onde impera o egoísmo e a ambição, sempre existirão aqueles que serão inalcançados, e para esses tarda a “benção” da prosperidade. Insisto, será apenas falta de fé, ou a teologia da prosperidade é uma farsa?

Precisamos desencantar o mundo, e deixar de romantizar nosso cristianismo. Observo que muitas vezes os crentes se acham um espécie de “Power Rangers” divino, onde em alguns momentos vivemos uma vida corriqueira e normal, mas em outros lutamos contra monstros e criaturas utilizando super poderes.

Temos que fazer a diferença, mas no mundo real,e não nas nossas fantasias. Nossas ações como cristão devem ser concretas como foram as de Jesus quando passou por este mundo. Acima de qualquer milagre ou outra coisa que ele tenha feito, superabundaram à amizade, o amor, a justiça e a graça. Jesus foi marcado como aquele que passou pelo mundo fazendo o bem. Ele colocou a benignidade e a misericórdia no centro da vida cristã.

Não precisamos de uma religião que nos de tudo o que quisermos, mas, de uma que seja capaz de abraçar a humanidade, sem distinções, sem preconceitos ou prerrogativas. Precisamos de uma religião que nos transforme novamente em seres humanos, capazes de amar ao próximo como a nós mesmos.

Flavio ( FHCA ® )


“...O exercício da cidadania evangélica é ao mesmo tempo uma expressão de amor como expressão de justiça.

O âmago do evangelho é a busca da justiça em amor. E da proclamação do amor a partir da justiça.

' O que segue a justiça e a bondade achará a vida, a justiça e a honra' (Provérbios 21.21.)

O exemplo do Bom Samaritano. O fez por um sentimento de amor, talvez não passasse no teste do politicamente correto. Não houve contestação do sistema, da insegurança. Mas como expressão do seu profundo amor, a justiça foi exaltada.

Esse é o mistério da encarnação. Cristo ao mesmo tempo dá o que é de Deus e de César. O transcendente e o imanente encarnam-se. A igreja participa no palco social e constrói um castelo transcendental. Age no imanente como justiça, porque foi visitada pelo transcendente com amor.

Por isso é que historicamente ela tanto tem um Desmond Tutu na África do Sul que celebra um culto a Deus orando para que seja desmantelado o sistema do Aparthaid como sai pelas ruas em passeata pedindo que o regime iníquo caia por terra. Um Martin Luther King Jr, que prega o sermão em Atlanta e faz o discurso em Washington. Um Wilberforce que pastoreia uma igreja e ao mesmo tempo é membro do Parlamento Britânico que joga por terra o regime escravagista.
Você tem comunidades evangélicas no morro pregando o evangelho e promovendo cursos de alfabetização. Missionários que dão aula de bíblia e de cuidados de higiene...

...Precisamos de outras respostas para o sofrimento humano; os pressupostos desses evangélicos, que anunciam prosperidade com tanto estardalhaço, não abarcam a complexidade do sofrimento universal.
Proponho que os prodígios do Evangelho sejam outros; que a presença de Deus se revele no serviço, no amor solidário e na compaixão. Que as mãos e os pés de Deus sejam as mãos e os pés dos que não fogem da dor alheia...”
(Ricardo Gondim)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A dúvida de mãos dadas com a fé



- Texto do Pr Ricardo Gondim num debate acadêmico na Bienal do Livro 2008.
Tema: Fé e Descrença

Via [Ricardo Gondim]

Introdução.

Como sei o que sei? Nesta pergunta básica reside todo o problema da epistemologia. Um nó apertado. Este trabalho não pretende lidar com os fundamentos filosóficos do conhecimento, mas com a crise que o protestante brasileiro, e particularmente com a crise do evangélico, que esperneia quando se defronta com a dúvida.

Sinto-me desafiado a aliviar este nó epistemológico, porque o assunto me toca de perto. Como pastor evangélico, como pesquisador das Ciências da Religião e como cristão praticante, preciso entender o porquê do receio diante da possibilidade da dúvida.

É próprio de o sujeito religioso assegurar a sua convicção inabalável, a sua certeza absoluta e o seu acesso perfeito à verdade divina. Ele se considera tão convicto de que atingiu a realidade única, objetiva, real e concreta, que sai para fazer prosélitos. Admitir a remota possibilidade de não estar alinhado à verdade absoluta, constitui-se em uma fraqueza inadmissível para os demais praticantes de sua tradição religiosa.

O problema se torna agudo entre os evangélicos e protestantes que optaram pelo que Rubem Alves denominou de “Protestantismo da Reta Doutrina”. E precisamente os da reta doutrina levedam a precária produção literária e teológica dos evangélicos nacionais. Segundo Rubem Alves, os “Protestantes da Reta Doutrina privilegiam a concordância com uma série de formulações doutrinárias, tidas como expressões da verdade, e que devem ser afirmadas sem nenhuma sombra de dúvida, como condição para participação na comunidade eclesial”[1].

Esse grupo se firmou nos Estados Unidos no apogeu da modernidade, quando se questionava a legitimidade “científica” dos relatos bíblicos. Alguns teólogos calvinistas se apressaram em demonstrar que o cristianismo não era apenas racional, mas a única revelação de Deus aos homens. O teólogo Charles Hodge catalogou cinco ou seis fundamentos da fé cristã, para ele inegociáveis. E de seus primeiros tratados, nasceu um movimento que passou a ser conhecido como “fundamentalismo”.

Hodge afirmava:

“A tarefa do teólogo consiste não em buscar significado além das palavras, mas em organizar os claros ensinamentos das Escrituras num sistema de verdades gerais”[2].

Hodges propunha que “Deus inspirou cada uma das palavras da Bíblia; portanto, é preciso levá-las a sério e não distorcê-las com exegeses alegóricas ou simbólicas”[3].

Portanto, o termo fundamentalismo, hoje carregado de significados negativos, a princípio não passava de um esforço sincero de tornar os textos sagrados em “verdades factuais”. Os teólogos fundamentalistas cometiam, entretanto, o mesmo erro dos cientistas da natureza, os racionalistas que se ocupavam com a razão – com análise de dados, com fatos, fenômenos, operações, processos, energias, estruturas, evoluções”[4].

Hans Küng afirmou que caso os teólogos e filósofos queiram dialogar com a ciência natural, será necessário modéstia e autocrítica. Pois “muitos cientistas já chegaram a reconhecer que não podem oferecer verdades definitivas”[5].

Küng não mede palavras quando aborda a atitude do teólogo quanto à verdade: “Pois também eles, que profissionalmente estão empenhados na verdade da fé, não possuem de antemão esta verdade, nem dela dispõem de forma definitiva”[6].

A crise evangélica nacional e esperneia dentro da lógica fundamentalista. Segundo Prócoro Velasques Filho, em Introdução ao Protestantismo no Brasil (Edições Loyola, p. 126) o corte do protestantismo, os evangélicos brasileiros têm raízes no fundamentalismo norte americano, que se caracterizou precisamente por dois eixos principais: o milenarismo e a teologia da inerrância ou inspiração plenária da Bíblia. Para os teólogos originais do fundamentalismo, a “revelação de Deus só seria perfeita se fosse ‘isenta de erros, contradições, paradoxos e inconsistências’”.

Com esta característica de privilegiar a adesão dogmática à uma “verdade absoluta”, antecipo dois caminhos para os “Protestantes da Reta Doutrina”:

a) Acomodam-se em repetir os antigos dogmas, sem coragem para se repensarem, sem ousadia para fazer perguntas que os deixarão sem respostas, sem determinação de levar às últimas conseqüências suas deduções.

A repetição produz conforto. Os crentes estão sempre em busca de conforto quando vão às igrejas aos domingos. A repetição conforta porque ela confirma a imutabilidade da verdade. E na medida em que a verdade afirmada no momento é a verdade que alguém já está acostumado a ouvir, cria-se a certeza de ser-se senhor da verdade[7].

Acontece que a repetição também conduz ao enfado. A optar pela repetição de verdades bem assentadas e previamente cridas, o evangélico cria um ambiente de mesmice. E para sair da mesmice, precisa inventar ambientes emocionalmente carregados, para isso apela para os cânticos que eletrizem em nome de louvores, as emoções que o discurso não gera.

Antônio Gouvêa Mendonça, pesquisou os primórdios da evangelização brasileira e concluiu:

“Sabemos que os sermões eram conservasionistas e polêmicos; o pregador procurava apelar para a distinção entre a “verdade” e o “erro”, entre a nova mensagem e a religião dominante. O tom do sermão era dogmático e racionalista ao mesmo tempo; dogmático ao fundamentar-se nos dogmas comuns do cristianismo que deviam ser recuperados diante de uma melhor e mais verdadeira fundamentação escriturística, e racionalista ao procurar tecer o sermão numa lógica irrecusável. O objetivo era convencer o ouvinte e uma verdade contra outra. Mas o dogmatismo-epistemológico-polêmico nem sempre era suficiente para mover o ouvinte a uma mudança de atitudes; daí a necessidade de aliar ao sermão, já na maior parte das vezes dramático, cânticos apropriados para auxiliar a elevação do “tônus” emocional da reunião, formando ambiente favorável às decisões individuais (conversões)[8]

b) Recrudescem na intolerância, fecham-se em guetos, endurecem o controle criam “historiadores oficiais”, “teólogos chancelados”, “voltam os tribunais inquisitoriais” para caçar os que se atrevem caminhar até as fronteiras (Boaventura), os que saem dos paradigmas (Kuhn), os que desafiam os marcos categoriais (Juan Luis Segundo).

Atrevo-me a sugerir que o movimento evangélico brasileiro reconheça sua incapacidade de abarcar “a verdade”, que abandone o pressuposto de que vai codificar a correta doutrina de Deus, admita que o conhecimento absoluto de Deus está para além da capacidade humana. Na verdade, ninguém tem o acurado conhecimento de Deus; caso fosse possível, como alguém já afirmou, “eu seria ele”.

O teólogo espanhol, Andrés Torres Queiruga propõe que a teologia abra um diálogo até com os ateus:

O ateísmo, em sua própria negatividade, pode ser uma grande oportunidade para a fé; pode até ser uma medida da Providência para que os cristãos, assumindo a crítica atéia, compreendam que Deus é sempre muito maior. – “Deus sempre maior” – do que as idéias que nós fazemos dele. A crítica dos ateus pode ajudar-nos a romper os esquemas em que tantas vezes encadeamos e deformamos a idéia de Deus[9].

Para sair do impasse de que a fé precisa de verdades absolutas e a possibilidade de dúvida. Proponho que a cosmovisão protestante evangélica re-signifique a fé. Sugiro, portanto que:

A verdade seja tratada como “boa-fé”.

No excelente “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, André Comte-Sponville coloca a “boa-fé” como um dos grandes valores da humanidade. O filósofo francês, depois de lutar entre os termos veracidade, veridicidade e autenticidade, optou finalmente por “boa-fé”. Para ele, boa-fé é um fato, portanto, aomesmo tempo uma realidade psicológica e uma virtude, ou um traço moral. Como fato, boa-fé, é “a conformidade dos atos e das palavras com a vida interior, ou desta, consigo mesma”. Como virtude, é o amor ou respeito à verdade. Ter boa-fé é dizer o que acredita, mesmo que esteja enganado, como acreditar no que diz. É crença fiel, e fidelidade no que se crê.

A verdade deixaria, então de ser a concordância a um postulado ou a uma asseveração previamente estudada e concordada, para ser uma integridade. A boa-fé se opõe, portanto, ao dogmatismo. E quem opta pela verdade em nome do dogmatismo e não como uma “boa-fé”, vira intolerante.

“Tomam sua fé por um saber. Por ela, estão dispostos a morrer e a matar. Eles não duvidam. Eles não hesitam. Eles conhecem a Verdade e o Bem. Para que necessitam de ciências? Para que necessitam de democracia? Tudo está escrito no Livro. Basta crer e obedecer. Entre Darwin e o Gênesis, entre os direitos do homem e a Sharia, entre os direitos dos povos e a Tora, eles escolheram de que lado estão, de uma por todas. Eles estão do lado de Deus.. Como poderiam estar errados? Por que deveriam crer em outra coisa? Fundamentalismo. Obscurantismo. Terrorismo. Eles querem fazer-se anjos; fazem-se de bestas ou de tiranos. Tomam-se por Cavaleiros do Apocalipse. São os janízaros do absoluto, que eles pretendem possuir com exclusividade e que reduzem à dimensão, singularmente estreita, de sua boa consciência. São prisioneiros da sua própria fé, escravos de Deus ou do que consideram ser – sem provas – sua Palavra ou sua Lei[10].


A verdade como história, como narrativa, como metáfora.

Jonathan Sacks diz que o judaísmo é repleto de histórias, segundo o dito judaico, “Deus criou o homem porque gosta de histórias”). A própria Bíblia é um dos exemplos fundamentais da verdade como história, ao contrário do modelo ocidental conhecido – a história como sistema[11]. O saber conceitual não é o mesmo do saber proverbial. O conhecimento absoluto não está na mesma categoria do conhecimento intuitivo. A percepção das entranhas não é a mesma da razão.


A verdade como compromisso com a vida.

De acordo com Michel de Foucault a “verdade” como conceito absoluto precisa do anteparo do poder. A verdade que prevalece não é necessariamente “a” verdade, mas aquela que as instituições dominantes impõem:

... a verdade não existe fora do poder ou sem poder (não é – não obstante um mito, de que seria necessário esclarecer a história e as funções – a recompensa dos espíritos livres, o filho das longas solidões, o privilégio daqueles que souberam se libertar). A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro[12].

A ortodoxia se estabelece como o piso da ortopraxia. E a ortopraxia é o que anima a ortodoxia. Portanto, segundo David Bosch, na esteira do iluminismo, as igrejas antigamente “se arrogavam do direito de determinar qual era a verdade ‘objetiva’ da Bíblia e de dirigir a aplicação dessa verdade intemporal ao cotidiano dos crentes”[13]. Bosch afirma que Schleiermacher “foi o pioneiro em perceber que toda teologia era influenciada, se não determinada, pelo contexto em que evoluíra”[14].

Dessa forma, Bosch chega à conclusão que “ a reivindicação universal da hermenêutica da linguagem precisa ser contestada por uma hermenêutica da ação, porque fazer é mais importante que saber ou falar. Nas escrituras são bem-aventuradas as pessoas que agem. E eu concordo com ele que, “não existe, em verdade, conhecimento exceto na própria ação, no processo de transformar o mundo através da participação na história’”[15]


A verdade como uma aproximação do sublime.

Deslumbramento, ou fascínio pelo numinoso, o mistério tremendo, como queria Rudolf Otto.

O rabino Abraham Joshua Heschel dizia que os gregos aprenderam para compreender. Os hebreus aprenderam para reverenciar. O homem moderno aprende para fazer uso de seu conhecimento[16]. E sugere um outro nível de conhecimento, que leve ao espanto, ao deslumbramento, ao maravilhamento. A verdade seria, portanto, um encontro com o sublime.

Heschel define sublime como aquilo que podemos ver e não conseguimos definir. É a alusão silenciosa das coisas a um significado maior do que elas mesmas. É o que todas as coisas definitivas simbolizam; “o silêncio inveterado do mundo que permanece imune à curiosidade e às indagações, como uma folhagem perdida no anoitecer”. O sublime é o que nossas palavras, fórmulas e categorias não podem jamais alcançar.

Para o rabino, o sublime não está, necessariamente, relacionado com o que é vasto e esmagador por suas dimensões. “O sublime pode ser percebido em cada grão de areia, em cada gota de água. Todas as flores no verão, todos os flocos de neve no inverno podem despertar em nós uma sensação de maravilhamento, que é nossa resposta ao sublime”[17]. Por isso, a verdade está onde a mente não necessariamente consegue elucidar.

Porque a verdade é sublime, porque o real está no imponderável, porque a realidade não se limita aos contornos da racionalidade, nasce a poesia e minha verdade foi expressa no meu poema “Sobre Deus”:

Não sei explicar as razões da minha fé. Não sei dizer os porquês da minha devoção. Sinto-me inadequado para convencer os indiferentes a desejaram a pitada do sal que tempera o meu viver. Tudo o que sei sobre o Divino é provisório. Minhas convicções vacilam. Todas as certezas são, decididamente, vagas.

Sei tão somente que Ele se tornou a minha meta, o meu norte, a minha nostalgia, o meu horizonte, o meu atracadouro. Empenhei o futuro por seguir os seus passos invisíveis. No dia em que o chamei de Senhor, a extensão do meu meridiano se alongou, os retalhos do meu mapa se encaixaram, caíram os tapumes da minha estrada, o ponteiro da minha bússola se imantou.

Sei tão somente que Ele se fez residente no campus dos meus pensamentos. Presente nos vôos da minha imaginação, virou um doce ponto de interrogação. Causa de toda inquietação, tornou-se a fonte de minha clarividência.

Sei tão somente que Ele se desfraldou como bandeira sobre os meus ombros. E o cilício, as purgações, os sacrifícios, tudo foi substituído por desassombro. No porão da tortura, nos suplícios culposos, achei um ambulatório. Os livros contábeis onde se registravam meus erros foram rasgados. As punições, suspensas. Já não fujo dele como de um Átila. Eu agora o chamo de Clemente.

Sei tão somente que Ele ardeu o delicado filamento que acende a luz dos meus olhos. Ele foi o mourão que marcou o outeiro de minha alma como um jardim. Ele é o badalo que dobra o sino do meu coração; o alforje onde guardo os acertos e desacertos do meu destino.

Sei tão somente que Ele me fascina quando refrata luz. Dele vem o encarnado que tinge minha face com o rubor do sol. Seu amarelo me brinda com o açafrão do mundo do mistério; e o roxo me colore de púrpura real. Seu branco é lunar e me prateia. Seu preto me conduz até o nanquim celestial. Por sua causa, espelho o azul dos oceanos mais longínquos.

O que dizer de Deus? Tão pouco! Espero, tão somente, que o meu espanto expresse o tamanho da minha reverência.

Soli Deo Gloria.



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[1] Alves, Rubem – Religião e Repressão – Edições Loyola, São Paulo, 2005. p.44.
[2] Armstrong, Karen – Em nome de Deus – Companhia das Letras, São Paulo, 2005, p.168.
[3] Idem, p.168.
[4] Küng, Hans – O princípio de todas as coisas – Editora Vozes, São Paulo, 2007, p.62.
[5] Idem, p.62.
[6] Idem, p.62.
[7] Alves, Rubem – Religião e Repressão, Editor Loyola, São Paulo, p. 138.
[8] Mendonça, Antônio Gouvêa – O Celeste Porvir, a Inserção do Protestantismo no Brasil – Edições Paulinas, 1984, p.208.
[9]Queiruga, Andrés Torres – Creio em Deus Pai – Editora Paulus, São Paulo, 2005, p.21.
[10] Comte-Sponville, André – O espírito do ateísmo – Martins Fontes, São Paulo, 2007, p.32.
[11] Sacks, Jonathan – “Para curar um mundo fraturado – a ética da responsabilidade, Editora Sefer, São Paulo, p. 23.
[12] Foucault, Michel – Microfísica do Poder, Edições Graal, São Paulo, 2007, p.12.
[13] Bosch, David – Missão Transformadora – Mudanças de Pradigma na Teologia da Missão, Editora Sinodal, Rio G. do Sul, 2002, p.504.
[14]Idem, p.505.
[15] Idem, p.508.
[16] Heschel, Abraham Joshua – Deus em busca do homem – Editora Arx, São Paulo, p.43.
[17] Idem, p. 49.

7 características de igrejas que cometem abuso espiritual....

1) Scripture Twisting (Distorção da Escritura): para defender os abusos usam de doutrinas do tipo “cobertura espiritual”, distorcem o sentido bíblico da autoridade e submissão, etc. Encontram justificativas para qualquer coisa. Estes grupos geralmente são fundamentalistas e superficiais em seu conhecimento bíblico. O que o lider ensina é aceito sem muito questionamento e nem é verificado nas Escrituras se as coisas são mesmo assim, ao contrario do bom exemplo dos bereanos que examinavam tudo o que Paulo lhes dizia.

2) Autocratic Leadership (liderança autocrática): discordar do líder é discordar de Deus. É pregado que devemos obedecer ao ditador, digo discipulador, mesmo que este esteja errado. Um dos “bispos” de uma igreja diz que se jogaria na frente de um trem caso o “apóstolo” ordenasse, pois Deus faria um milagre para salvá-lo ou a hora dele tinha chegado. A hierarquia é em forma de pirâmide (às vezes citam o salmo 133 como base), e geralmente bastante rígida. Em muitos casos não é permitido chamar alguém com cargo importante pelo nome, (seria uma desonra) mas sim pelo cargo que ocupa, como por exemplo “pastor Fulano”, “bispo X”, “apostolo Y”, etc. Alguns afirmam crer em “teocracia” e se inspiram nos líderes do Antigo Testamento. Dizem que democracia é do demônio, até no nome.

3) Isolationism (Isolacionismo): o grupo possui um sentimento de superioridade. Acredita que possui a melhor revelação de Deus, a melhor visão, a melhor estratégia. Eu percebi que a relação com outros ministérios se da com o objetivo de divulgar a marca (nome da denominação), para levar avivamento para os outros ou para arranjar publico para eventos. O relacionamento com outros ministérios é desencorajado quando não proibido. Em alguns grupos no louvor são tocadas apenas músicas do próprio ministério.

4) Spiritual Elitism (Elitismo espiritual): é passada a idéia de que quanto maior o nível que uma pessoa se encontra na hierarquia da denominação, mais esta pessoa é espiritual, tem maior intimidade com Deus, conhece mais a Biblia, e até que possui mais poder espiritual (unção). Isso leva à busca por cargos. Quem esta em maior nível pode mandar nos que estão abaixo. Em algumas igrejas o número de discipulos ou de células é indicativo de espiritualidade. Em algumas igrejas existem camisetas para diferenciar aqueles que são discípulos do pastor. Quanto maior o serviço demonstrado à denominação, ou quanto maior a bajulação, mais rápida é a subida na hierarquia.

5) Regimentation of Life (controle da vida): quando os líderes, especialmente em grupos com discipulado, se metem em áreas particulares da vida das pessoas. Controlam com quem podem namorar, se podem ou não ir para a praia, se devem ou não se mudar, roupas que podem vestir, etc. É controlada inclusive a presença nos cultos. Faltar em algum evento pro motivos profissionais ou familiares é um pecado grave. Um pastor, discípulo direto do líder de uma denominação, chegou a oferecer atestados médicos falsos para que as pessoas pudessem participar de um evento, e meu amigo perdeu o emprego por discordar dessa imoralidade.

6) Disallowance of Dissent (rejeição de discordâncias): não existe espaço para o debate teológico. A interpretação seguida é a dos lideres. É praticamente a doutrina da infalibilidade papal. Qualquer critica é sinônimo de rebeldia, insubmissão, etc. Este é considerado um dos pecados mais graves. Outros pecados morais não recebem tal tratamento. Eu mesmo precisei ouvir xingamentos por mais de duas horas por discordar de posicionamentos políticos da denominação na qual congregava. Quem pensa diferente é convidado a se retirar. As denominações publicam as posições oficiais, que são consideradas, obviamente, as mais fiéis ao original. Os dogmas são sagrados.

7) Traumatic Departure (saída traumática): quem se desliga de um grupo destes geralmente sofre com acusações de rebeldia, de falta de visão, egoismo, preguiça, comodismo, etc. Os que permanecem no grupo são instruídos a evitar influências dos rebeldes, que são desmoralizados. Os desligamentos são tratados como uma limpeza que Deus fez, para provar quem é fiel ao sistema. Não compreendem como alguém pode decidir se desligar de algo que consideram ser visão de Deus. Assim, se desligar de um grupo destes é equivalente a se rebelar contra o chamado de Deus. Muitas vezes relacionamentos são cortados e até famнlias são prejudicadas apenas pelo fato de alguém não querer mais fazer parte do mesmo grupo ditatorial.

fonte:Emeurgência via [ Tomei a Pilula Vermelha]

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O amor...

Quem ama colore o vento, perfuma o sol, tempera as horas. O amor forja as pessoas sem as deixar cretinas. O amante não cogita, logo inexiste. Ilógico, não é convidado para a roda dos exatos.

Quem ama espera. Todo amante é ingênuo, sempre a cometer atos falhos. Imprecavido, deixa-se apanhar em repetidos flagrantes. O amor não se protege, embora resista, mesmo sob tortura.

Quem ama obedece, cumpre, aceita. O amante corre, chega por último, mas se sente o vencedor. Vassalo, aceita sem perguntar e obedece a ordem que nunca lhe foi dada. Imprudente, abre mão das preferências, cede lugar, divide jugo, lava pés.

Quem ama perde o medo. Os amantes desdenham do tempo. O ócio não lhes é pecado. Consideram ganhos, uma tarde perdida na beira da praia, uma semana enterrada entre os pobres, um mês gasto na clínica odontológica.

Quem ama transgride. O amante é um eterno contraditório. Pela amada, desdiz o que aifrmou categoricamente. Rasga leis (até as divinas) para evitar um apedrejamento. Misericordioso, assume-se como tolo. Abraça a prostituta indigna, perdoa o ladrão contumaz, aposta no covarde, e janta com o seu traidor.

Quem ama sofre. Amor e paixão nascem de um mesmo ninho. Não existe amante tranquilo. Vulnerável, arrisca-se a sofrer abandonos. Impotente, recusa-se a manipular. Amarga rejeições, sonha com retornos pródigos e não se conforma com a ingratidão.

Quem ama conversa com as estrelas, diz que as paredes ouvem e questiona os espelhos. Ridículo, insiste em escrever cartas que nunca podem ser publicadas. O amante enxerga beleza em véus encardidos, folhas secas, águas paradas, prados amarelecidos, dias chuvosos.

Quem ama vê Deus em um pobre. O amante se sente bem entre idosos e viúvas. Seus anjos não voam e não ostentam força, apenas compaixão. Sensível, agoniza com a dor alheia. Honesto, não simula onipotência. Humilde, não propandeia seus avanços pessoais.

Quem ama conhece a Deus e é nascido de Deus.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim - via [www.ricardogondim.com.br]

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Era uma vez um Deus que ninguém amava....


Era uma vez um Deus que ninguém amava...
Pudera, inalcançável era.
Só conseguia fazer com que o buscassem; desesperadamente.
Era um Todo Poderoso que ninguém imitava.
Só conseguia fazer com que o temessem.
Sublime e triste,
só conseguia que o cultuassem.
Até que gostava dos cultos, sacrifícios, respeito...
Mas tudo virava tédio. Solene tédio.

Como um Deus - pensava ele - pode não poder algo?
Sou capaz de amar, mas não me fazer amar...
Resolveu arriscar – vou me confessar, pessoalmente.
Seja o que Eu quiser!

Auto-transformou-se em alguém fragilmente amável
e veio brincar no quintal do mundo.
Agora corria, sorria e transpirava;
tocava, abraçava e fugia;
chorava, comia e bebia;
sofria, gritava e gemia...
Até que finalmente ele conseguiu que alguém dissesse:
Um Deus assim eu consigo amar...

Dizem que nunca mais foi o mesmo,
e que ainda é visto andando por aí...
Nas ruas, campos e praças a esmo,
mas já não o podem ver aonde vai.
Dizem até que foi sonho,
e jamais houve um Deus pra se amar.

Era uma vez um Deus que ninguém amava...

Via [ Verticontes ]

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A maldição do Cristo genérico

Recentemente abandonei a leitura do livro “A maldição do Cristo Genérico”, de Eugene Peterson, por achá-lo muito prolixo. Confesso que com um título desses, eu esperava um pouco mais do autor.

Contudo, navegando pela internet, achei esse texto no blog Romanos 12, onde nos é apresentado um Jesus genérico, o senhor Gezuz. Apresento abaixo alguns princípios para que você poss identificar que tipo de “cristo” estão pregando na sua igreja:
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JESUS: Aceitava pessoas pobres e ricas, sem tratá-las de forma diferente por este quesito.
GEZUZ: Só abençoa quem deixa a contribuição financeira no seu altar.
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JESUS: Ficou irritado ao ver pessoas vendendo coisas no templo e transformando a casa de oração em comércio.
GEZUZ: Adora ver a igreja ser um comércio, pois assim, com o dinheiro, ele pode ter novas filiais de suas empresas-igrejas para mais pessoas conhecerem seu lindo nome: Gezuz!
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JESUS: Não deixava os demônios falarem.
GEZUZ: Adora ver os demônios falar, dar entrevistas e fazer espetáculos para impressionar as pessoas e prendê-las na religião pelo medo.
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JESUS: Para ele o amor é muito mais importante do que o dízimo.
GEZUZ: Até entende se você não amar, afinal, a carne é fraca, mas se você não der o dízimo, ele deixa o devorador comer o teu salário.
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JESUS: Revelou com detalhes a vida da mulher samaritana.
GEZUZ: Não conhecendo muito bem as coisas, chega numa platéia com mil pessoas e chuta: “Tem 10 aqui com dor de cabeça, 8 com reumatismo, 3 com causa na justiça, 40 desempregados...”
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JESUS: Soprou o Espírito Santo em seus discípulos.
GEZUZ: Só dá o Espírito Santo se você falar meio enrolado e desembolsar uma graninha.
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JESUS: Teve medo no jardim do Getsêmani.
GEZUZ: Diz que o medo vem do diabo.
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JESUS: Chamou pessoas que usavam a religião como causa de ganho financeiro e status de hipócritas, mentirosas, raças de víboras e filhas do inferno.
GEZUZ: Chama pessoas que usam a religião como causa de ganho financeiro e status para se assentarem no púlpito da igreja e darem uma palavra.
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JESUS disse: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. (lucas 6:20).
GEZUZ disse: bem-aventurados vós que sois ricos, por que pobre ou está em pecado ou precisa de um verdadeiro encontro comigo.
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Ora, não há outro salvador a não ser Jesus! (At 4.11-12). Não deixem que te empurrem esse placebo chamado Gezuz goela abaixo; foneticamente parece a mesma coisa, mas quando observamos seus ensinos vemos que ele é muito diferente do nosso Salvador, o Senhor Jesus.

Se o Jesus que estão pregando em sua igreja é o Gezuz, saia fora dela enquanto é tempo. Mas não fique por aí perdido não: procure uma igreja bíblica e cristocêntrica, que pregue a Jesus, e não Gezuz. Eu sei que essas estão escassas, mas posso te garantir que elas ainda existem!
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Por Leonardo G. Silva – Th.M.

Adaptado do blog Romanos 12 [via Thiago Mendanha]

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Próposito ???


É lamentável ouvir dos líderes maiores da igreja Renascer, Srs Estevão e Sonia Hernandes que a tragédia que se deu no seu templo deve ter algum “propósito” divino. Achei que não seria possível piorar esta frase, mas lendo um post do blog “Papo de teólogo”, uma sra chamada Creusa de Marta Zampiere diz num comentário que esta tragédia aconteceu porque eles estavam fazendo a grande campanha de um novo tempo, na unção de Davi, e o desabamento do teto foi fruto do diabo e seus demônios, pois eles estavam supostamente incomodando o inferno. Alias, no mesmo comentário ela declara aos mesmos demônios, castas e legiões que caiam.

“Olá Amigo.
Eu congrego na Renascer em Cristo.
Através da Renascer tive um encontro com Jesus Cristo, com Seu caráter e com Seu Poder de vida.
Posso afirmar que Deus em Pessoa fala com cada coração na ora do culto.
E, isso é maravilhoso para quem entende e recebe as dádivas da e da misericórdia da parte de Deus.
Estamos em campanha de um novo tempo, na unção de Davi.
Para o homem natural que ve e sente como homem natural, o que está acontecendo com a Igreja Renascer, não passa de tragédia ou fatalidade, mas nós que somos espirituais, não vivemos mais na carne, temos a certeza que nossa campanha realmente incomodou o inferno co seus demônios.
E, como serva do Todo Podereso eu declaro que o inferno com seus demônios, castas e legiões já cairam em nome de Jesus.
O inferno está incomodado com a Igreja de Cristo, principalmente a Renascer porque o poder de Deus esta nesta Igreja....”

Fonte.: http://papodeteologo.gospelmais.com.br/igreja-renascer-uma-tragedia-anunciada/#comments ( Comentário 07 – 09:16 PM )


Longe de mim ser sarcástico com a dor alheia, mais o que realmente caiu foi o teto deste templo, matando pessoas e ferindo outras, e posso garantir com certeza que, se há um responsável, ele é de carne e osso como todos nós.

Os cristãos evangélicos tem um costume muito complicado de pesar as coisas. Quando tudo vai bem o discurso é: “estamos trabalhando em pró...”, “nosso ministério está prosperando”, mas quando algo dá errado, a culpa é do diabo, ou como diria os Hernandes: “há de haver um propósito”.

Perdoe minha ignorância, mas infelizmente não sou “espiritual” o suficiente para enxergar um propósito divino na dor e no sofrimento humano. Esta afirmação não faz frente com o Deus que eu conheci na pessoa de Jesus. Vivemos num mundo livre e Deus através do livre arbítrio deixa que tomemos nossas próprias decisões. Devemos lembrar que temos o controle dessas decisões, mas nenhum controle sobre as conseqüências delas. Peço a Deus que tudo possa ser devidamente esclarecido, e que ele console aqueles que perderam pessoas queridas.

Flavio ( FHCA ® )

A propósito...

Propósito. Já me antipatizava com esta palavra, agora ainda mais, pronunciada pelos bispos da Igreja Renascer, dizendo ter um “propósito” tal acontecimento, referindo-se ao desmoronamento da estrutura da sede da igreja no último domingo.

Propósito é dessas palavras que precisamos falar meio cuspindo, pois a consoante surda e oclusiva “Pê” dita seguidamente e ainda por cima com um acento agudo (acho que esse ainda continua com um propósito para existir), dá ao pronunciante um ar de mal-educado e/ou presunçoso. As bandeiras da bochecha que flamulam por impulsos da fonética, trazem consigo o moto do cinismo.

Propósito também soa sabedoria. - Claro que quando dita; quando escrita a palavra não soa, ela estampa. Quando dita, as palavras voam, tem tons, intenções, ritmo, e podem atingir o ouvinte de várias formas, deixando nesse, conotações e impressões. A palavra dita é fria e determinada. Categórica. Por isso tantos mal-entendidos nos e-mails. Alguns até usam de grafismos após a palavra para auxiliar nas intenções. (ex. rrsss, :(, :) ).

Em resumo: propósito, dito ou escrito, soa e estampa sabedoria.

Propósito é das palavras coringas: podem ser usadas a qualquer momento que serve.

Ainda mais quando associada à figura de Deus. Entre as mais famosas está a frase-feita: “... Quem pode questionar os propósitos de Deus?”. Como que, querendo salvaguardar a imagem inexpugnável de Deus, o orador, com a força e piedade com que fala, acaba por esconder do próprio Deus os seus santos propósitos. A ponto de Deus mesmo se perguntar: “Ora, que propósito será?...”.

A propósito, sem querer de maneira alguma brincar com o sentimento das pessoas que nesse momento estão vivendo seus dramas e dores pela tragédia, quero concluir, com a ajuda de uma outra palavra que também não me agrada, mas que me é útil: engenharia.

Pode ser que, antes dos propósitos inescrutáveis, inexplicáveis, inquestionáveis de Deus, haja um fator de pífia nobreza entender: a gravidade é uma lei implacável. Se não está bem uma estrutura, seja de concreto armado, de metálica ou de madeira, o colapso é certo... E quase sempre avisa antes.

Wilson Tonioli, no Verticontes.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Agora vou até o fim



Por Ricardo Gondim ( www.ricardogondim.com.br )


Não sei porque me posicionei contra a invasão de Gaza. Não sou palestino, nunca estive nas áreas bombardeadas e não tenho nenhuma afinidade com qualquer militante do Hamas. Embora reconheça que existam muitos cristãos entre os palestinos, entendo que a maioria é islâmica. Não conheço nada do Corão. Gosto da cultura judaica e Jesus, meu senhor, era judeu.

Então, por que, meu Deus, eu me revoltei contra a carnificina de 2009? Consolidei a minha reputação de relativista, amigo de liberais e inimigo do “povo escolhido de Deus”. Só falta me rotularem de antisemita (Sem querer me defender, mas para registro: Sou admirador do pensamento judaico e reconheço a tradição pacifista dos teóricos do pensamento semítico).

“Ricardo, você não sabe que o mundo inteiro estará contra Israel? Não sabe que Jesus virá nas nuvens para advogar a causa do seu povo? Não sabe que o mesmo Deus que mandou dizimar cidades inteiras, matando crianças, velhos e animais, agora “limpa” o território de Israel? Não sabe que você corre o risco de ficar ao lado do Anticristo e da Besta Fera?”

Eu, que já estava ferrado, me indispus, completamente, com os evangélicos. Minha reação, diante de todos os arrazoamentos: Jesus de Nazaré jamais aprovaria o que um Estado militarizado e opressor faz com os pobres ridiculamente enjaulados numa tira de terra com quarenta quilômetros de extensão por dez de largura. Cristo não tolerou que os filhos de Boanerges invocassem a casuística bíblica para chover fogo do céu sobre os samaritanos. Não impulsionou a causa dos zelotes, não provocou ódio e não incitou vingança.

O movimento evangélico, em sua grande maioria, interpreta as profecias bíblicas com as lentes do fundamentalismo. Na versão mais comum, o mundo inteiro se revoltará contra os judeus. Liderados pelo Anticristo, os povos vão guerrear contra Israel. Mas Jesus vai voltar para resgatar o seu povo.

Uma pergunta, só uma: Por que as nações se revoltariam contra Israel? Se o Estado de Israel cometer atrocidades, oprimir e massacrar, então eu sou obrigado a me opor a ele. Nenhuma profecia me obriga a aceitar a maldade. Não posso pactuar com projetos meticulosamente programados para humilhar um povo sofrido e injustiçado. Assumi um compromisso com a justiça e não com uma leitura equivocada da profecia. Estou do lado de quem faz o que é louvável e de boa fama, não posso tolerar massacres.

E as profecias? Não sou contra nenhuma profecia, apenas inimigo da interpretação que a teologia fez da profecia. Não sou contra o projeto de Deus, apenas hostil à instrumentalização do seu projeto para beneficiar uma religião ou uma ideologia. Não sou contra a Bíblia, apenas estranho ao cinismo religioso.

Sei que devo ficar calado e curtir as minhas indignações na privacidade. Não consigo! Talvez a minha índole sertaneja me empurre para o lado de gente como Noam Chomski, Jimmy Carter, Norman G. Finkelstein, Naomi Klein e outros liberais, humanistas, relativistas e pósmodernos. Reconheço que sou impetuoso, na maioria das vezes, visceral. Como pentecostal, transbordo emoções.

Não gosto de beliscão. Melhor ficar de bem com a maioria, não me indispor com os poderosos e não cutucar quem ferroa. Levo bordoada e acabo chateado, mas fazer o quê?:

Quando eu nasci veio um anjo safado
o chato dum querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim. - Chico Buarque.

Soli Deo Gloria

A Igreja Hoje



"Nós construímos igrejas que se tornam nada mais do que lugares para os da fé se esconder enquanto fingem que suas ações estão boas e frutíferas para o mundo". (Erwin Raphael McManus)

"A igreja que deveria ser a guardiã dos princípios cristãos abriu mão de sua pregação sobre ética e moralidade paparicando seus políticos, evangélicos ou não, na busca de reconhecimento e status social, partilhando da impunidade administrativa e do enriquecimento ilícito.... A igreja é também a grande culpada pela violência estrutural, pois não tem amparado o pobre, usando das contribuições financeiras na construção de mega-igrejas, mega-templos e mega-denominações, pensando com isto agradar a Deus. Aquele que é adorado em 'espírito e em verdade' prefere ser adorado por corações contritos e dispensa os muitos sacrifícios. Se ... os crentes ... cumprissem com os mandamentos de Jesus praticando a justiça social e as boas-obras, não haveria crianças nas ruas, nem pessoas vivendo dos lixões, porque além de pregar a transformação do indivíduo - o que raramente se ouve nos atuais programas de televisão - socorreria com bens materiais os mais necessitados e afligidos pela pobreza." (Pr. João A. de Souza Filho)

"Se existe algo que a história nos ensina, este ensino é que os ataques mais devastadores desfechados contra a fé sempre começaram com erros sutis surgidos dentro da própria igreja". (John Macarthur Jr.)

"Eu vejo que chegou a hora da gente redescobrir as nossas vozes e parar de fingir que ta tudo bem numa igreja cheia de pecado e hipocrisias. Chegou a hora da gente redescobrir os nossos corações selvagens e descobrir o propósito das nossas vidas. O crente não é uma criatura criada para ser domesticado, ele é algo selvagem; assim Deus o criou e assim ele gosta." (Pr. Jeff)

Fraternalmente.

James no blog Jesus Maior Amor [via Meu Lugar é Aqui]

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Somente por isso...



"Assim como me deste um arrependimento, do qual não devo me arrepender, ó Senhor, dá-me um temor do qual não tenha medo" (John Donne em Meditações)


Meu desatino não é capaz de amofinar minhas motivações. Uma vez ouvi uma frase que dizia: “Não é por causa de uma decepção amorosa que você tem que deixar de acreditar no Amor”, e isso é algo que levo muito a sério. Embora me sinta desapontado muitas vezes com o sistema religioso, nunca deixei de perder minha empolgação com Deus.

Nas minhas linhas nunca questionei as diretrizes do Evangelho e a sua ênfase no Amor e na Graça. Num mundo onde se cometem genocídios como os de Gaza (não que eu tome partido por um dos lados, mas falo por causa da morte de inocentes), só corroboram quanto essas diretrizes são importantes na mudança, não simplesmente religiosa, mas uma mudança social do nosso mundo.

Deus me empolga por um motivo simples: porque eu o conheci. Não aquele deus egocêntrico, personalista e inacessível que é anunciado por muitos, que, vez por outra fica entediado nos céus e precisa de um punhado de humanos o adorando para se sentir melhor. Muito menos um deus partidário que abençoa os bons e aqueles que dão as ofertas mais altas na igreja, e coloca um pacote de serviços a disposição destes como curas, empreendimentos, carros, bons cargos, bons empregos, etc. e por puro condicionamento gosta mais de alguns e ignora a outros. Nem mesmo um deus que “pesará” sua mão sobre todos aqueles que por algum motivo não quiserem fazer parte do seu clã, previamente selecionado.

O Deus que me empolga ama incondicionalmente. É o pai que olha no horizonte e vê o filho em situação lastimável voltando, e que é tomado por tanta alegria que corre ao seu encontro e o recebe sem nem ao menos querer ouvir explicações. É o credor que perdoa uma alta dívida, assumindo todos os riscos. Deus é aquele que deixa que os seres humanos escrevam sua própria história, mesmo tendo pagado um preço alto pelas suas vidas, e essas mesmas vidas não invade com violência, ao contrário, acompanha com expectativa o crescimento como pessoas e a maneira como aprendemos a lidar com os problemas como um pai faz com o seu filho, sendo amigo na hora da dor e apoiando nos momentos de dúvidas. Ele é aquele que faz chover sobre a terra de justos e injustos, e que não espera que sejamos boas pessoas, mas verdadeiros. Que com contristação observa as injustiças sociais e as pessoas morrendo por causa de guerras estúpidas ou pelo egoísmo e ambição de outros. Ele é o Deus que se sente a vontade com os simples e com todos aqueles que são rejeitados por religiosos que julgam sem piedade o seu modo de vida, sem se importar que ali exista uma vida. Ele também repulsa a religiosidade e seu falso moralismo, mas dá ênfase a uma vida de atitudes simples, porém verdadeiras. Ele anda na contramão do mundo e de seus conceitos humanos de justiça, que semeiam muitas vezes ódio, preconceito e altivez nas pessoas. Ele é um Deus que não pode ser limitado pelas paredes de um templo, ou por uma placa, ou ainda pelo ego de um apóstolo, bispo, pastor e afins. Ele é um Deus que nos ama individualmente, e que sabe que por muitas vezes vamos decepcioná-lo, mas mesmo assim escolhe nos amar.

Por causa deste Deus minhas motivações sobrevivem, e que por muitas vezes, fazem-me repensar e questionar aquilo que nós como igreja fazemos com sua imagem, com seu nome e sua pessoa.

A igreja foi criada com um objetivo muito simples: mostrar todos os dias na terra que existe um Deus que ama pessoas, que gosta delas e não transformá-la em uma espécie de mercado da fé, onde estão dispostas em suas prateleiras panacéias sobrenaturais.

Prossigo, mesmo que tenha decepções religiosas, mas, não deixo de acreditar na maravilhosa graça que nos acalenta como uma aura suave.


Flavio ( FHCA®)