Considero o movimento pentecostal importantíssimo na história do cristianismo contemporâneo. Historicamente, as reuniões presididas por William Seymour na Rua Azusa em 1906, e a sua expansão, foram essenciais num momento tenso em que o racionalismo ganhava cada vez mais terreno, e que influenciava até mesmo alguns teólogos daquela época que passaram a questionar bases do cristianismo, como o pecado original e a existência de um Deus pessoal que se relaciona com os seres humanos. Podemos dizer então, que fundamentalmente o pentecostalismo foi um protesto espiritual contra o “secularismo” na igreja do inicio do século XX.
Se no começo do século passado o pentecostalismo foi fundamental como movimento, hoje 102 anos depois, no seu apogeu, ele me assusta. Por quê? Por um motivo bem simples. Ao longo dos anos estão transformando o pentecostalismo de um propósito muito sutil (de resgate de valores e do despertar ao relacionamento com Deus por meio do Espírito Santo) em uma fórmula de alienação de massas e controle ideológico.
A maioria dos pentecostais contemporâneos tem uma idéia empírica do que é relacionamento com Deus, baseados não em conhecimento, mas em experiências. Há uma inclinação a uma visão pragmática da funcionalidade e não da veracidade. Aliás, a grande maioria das pessoas que freqüentam as igrejas pentecostais tem um conhecimento muito reduzido sobre Deus e sobre as verdades bíblicas, mas muitas experiências pra contar. Vivencio uma tendência ao extremismo que diz que aqueles que procuram biblicamente defender os ideais cristãos são “crentes nominais”, “frios” ou “pouco revestidos”, enquanto os manipuladores emocionais de massas são vistos como “homens de Deus”. ( imagino o que pensariam de Paulo nos dias atuais ou no próprio Jesus que declara quando preso que “ensinou todos os dias” )
Não me considero um racionalista e muito menos (embora tenha freqüentado a vida inteira igrejas pentecostais) um pentecostal no sentido coloquial da palavra. Não posso ser um racionalista, porque se o fosse, provavelmente minhas deduções me levariam a duas opções: negar a existência de Deus como faz todos os ateus, ou negar a existência da ligação que existe entre Deus e os homens. Acredito incondicionalmente na existência de Deus, e ainda muito mais que ele quer, e se relaciona conosco. Por outro lado não poderia ser um pentecostal ( no sentindo coloquial ), pois não acredito que ações extravagantes, lágrimas, suor, glossolalia, gritos que mais parecem aquilo que Jung chamou de “histeria coletiva” representam fielmente o modelo ideal de relacionamento, que devemos ter com Deus.
Não posso como cristão simplesmente esquecer que o cristianismo tem muito mais de conceitual e aprendizado do que experiências emocionais. Jesus é muito mais importante pelo seu ensino do que pelos milagres que operou. A maior parte do Novo Testamento são de ensinos e conselhos. Paulo e os outros apóstolos exaustivamente orientam as igrejas. O próprio Jesus diz que suas palavras são “Espírito e Vida”. A Palavra tem papel tão importante na vida cristã que é chamada de pão e alimento, ou seja, vital para que se haja vida. Entre as funções do Espírito Santo que muitos ignoram está: “fazer-vos lembrar das palavras que eu vo-los tenho dito”.
O que quero dizer é: não há como menosprezar as manifestações do Espírito Santo. Acredito nelas como já as presenciei. Porém não posso aceitar que a vida cristã seja resumida em apelo emocional, ritualístico, extravagante e até mesmo esotérico. Coisas básicas como mudança de vida, amor ao próximo só vão conseguir fazer efeito em nós quando deixarmos que os conceitos e valores de Deus entrem nas nossas vidas por intermédio do ensino da Palavra, e não quando entrarmos em transe coletivo em um dos apelos frenéticos de algum “profeta” espalhafatoso, e aqui, fatalmente deparamo-nos como uma atividade mais conceitual do que emocional. A verdadeira fé é sentir-se amado, querido e perdoado por Deus sem a necessidade de demonstrações espetaculares. Quem realmente conhece a Deus, não precisa senti-lo de vez em quando, pois tem convicção que ele está presente a todo o momento porque é exatamente isto que Palavra diz.
Concluo que o melhor caminho a seguir é evitar os extremismos. Parece-me que há uma idéia disseminada que é impossível viver um cristianismo sem “escolher um lado”, “escolher um rótulo”, ou “uma verdade absoluta”. No livro Cristianismo Equilibrado John Stott diz:
“Alguns crentes são tão friamente intelectuais que se questiona serem eles mamíferos de sangue quente, para não dizer seres humanos, ao passo que outros são tão emocionais que se deseja saber se são possuidores de uma porção mínima de massa cinzenta. Eu me sinto constrangido a dizer que o mais perigoso dos dois extremos é o anteintelectualismo de depois a entrega ao emocionalismo...
Sinto-me na obrigação de acrescentar, contudo, que se o antiintelectualismo é perigoso, a polarização oposta é quase igualmente perigosa. Um hiperintelectualismo árido e sem vida, uma preocupação exclusiva com ortodoxia não é cristianismo do Novo Testamento. Não há dúvida de que os crentes primitivos eram profundamente motivados pela experiência de Jesus Cristo.”
Posso muito bem ser pentecostal, não extremista, que entende a importância de uma vida de momentos e Ação do Espírito, porém não ignorando os meios conceituais que envolvem a mensagem do Evangelho. Não precisamos de extremismos. Conhecimento e espiritualidade podem andar de mãos dadas, sem racionalidade e extravagâncias religiosas.
Flavio ( FHCA )
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Extremismo é a melhor solução?
Postado por Flavio Alcantara às 12:35
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3 comentários:
vish!
mais uma vez...
sensacional
flavioooo!
bjos mano!
Manu Flávio,
To contigo e num abro. Também sou cristão "pentecostal" equilibrado.
Adoro pensar, adoro sentir, mas pensar é mais seguro do que sentir!
Forte abraço!
Gostei da frase: "Porém não posso aceitar que a vida cristã seja resumida em apelo emocional, ritualístico, extravagante e até mesmo esotérico".
Texto mto bom, só senti falta de referências Bíblicas para apoiar a argumentação.
Alguns versículos interessantes:
A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder;
Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. (1Cor 2.4,5)
Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. (1Cor 1.18)
Sempre dou graças ao meu Deus por vós pela graça de Deus que vos foi dada em Jesus Cristo.
Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento. (1Cor 1.5)
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