quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O que está acontecendo?


“ Lembre-se de onde caiu! Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele” ( Apocalipse 2:5)


Olho com muita desconfiança essa exuberância evangélica em que vivemos. A mensagem que é pregada as massas nos nossos dias, não consegue de forma nenhuma responder as minhas inquietações. E elas são muitas.

Observo que a grande “sacada” é manipular de alguma forma o sobrenatural. Impressiona-me a necessidade dos cristãos brasileiros provarem de alguma maneira que os milagres acontecem a borbotões. Basta olhar o quanto se gasta em programas de televisão. Se você ligou a sua TV às seis horas da manhã, verá que em pelo menos 14 ou 15 canais há alguém falando como sua vida foi “mudada”, que Deus “funciona”, que os crentes vivem protegidos de acidentes, doenças e desemprego; e que a doutrina evangélica gera certezas absolutas. Toda essa propaganda só mostra como estamos nos distanciando da nossa vida, e de alguma forma queremos transformar nossas igrejas e comunidades em uma espécie de “ilha da fantasia”.

A realidade é: os valores cristãos estão invertidos. Vivemos de uma maneira obsessiva buscando segurança e conforto, uma espécie de “sonho americano”. Oramos por um bom emprego, jejuamos pelo carro novo, ofertamos e dizimamos pela casa na praia. O foco sempre é o meu próprio “eu”. Sempre pensamos em nós mesmos. Vivemos uma religião que está nos transformando em seres mesquinhos, egoístas e elitizados, quando deveria estar nos transformando em pessoas amorosas, humildes e coletivas.

Acredito que a luz do fim do túnel é uma mudança radical de atitude e de abordagem. Devemos viver uma fé mais “pé no chão”, considerando a realidade desta geração. Devemos nos desfazer do nosso cinismo e enxergar o mundo com os olhos que Jesus enxergava. Diga-me, como posso orar pra Deus queixando-me pelo fato de querer trocar o meu carro por outro mais novo, ignorando que esta noite pelo menos uma criança morrerá debaixo de alguma ponte em São Paulo. Diga-me, como posso fazer uma campanha para ganhar mais dinheiro, quando uma criança sofre de desnutrição em alguma vila da África e ao mesmo tempo um jovem está sendo assassinado por dívidas de drogas em algum lugar do Rio de Janeiro.

Devemos aprender a desencantar o mundo e agir com mais companheirismo e dignidade. O que adianta fazer uma grande concentração e ungir todas as ruas de uma cidade declarando: “tal lugar é do Senhor Jesus”, se nesta mesma noite, as mesmas pessoas que fizeram tal estardalhaço voltarão para casa em carros luxuosos e ignorarão todos os mendigos, prostitutas e crianças abandonadas que cruzarem pela rua.

Devemos ser menos apologéticos e mais construtores da história. No mundo pós-moderno em que vivemos as pessoas não se preocupam tanto com a verdade, mas com a credibilidade. Deveríamos estar mais preocupados com nosso testemunho do que com nosso discurso. Um bom exemplo é quando resolvemos fazer uma obra social. Normalmente não conseguimos separar o que são atos de caridade e a tarefa mais difícil, que é mudar a percepção que uma pessoa tem de si. Com freqüência, nossa motivação tem sabor de paternalismo (a notar pelos termos que usamos: “necessitados”, "excluídos" ou "subclasse"). Eu, o instruído e bem de vida, estendo minha mão compassiva para ajudar você a melhorar. Vemo-nos como aqueles que estão do lado de Cristo simplesmente por estarmos doando algo aos necessitados. O Novo Testamento deixa claro, porém, que Jesus está ao lado dos pobres, e que serviremos mais adequadamente se elevarmos os tais excluídos à posição de Jesus. John Ruskin, um escritor cristão define isso muito bem: “a motivação da caridade não é a condescendência, mas a ascendência: ao servir o pobre e fraco, temos o privilégio de servir o próprio Deus”.

Devemos fazer com que se esgote a nossa soberba onipotente e que sejamos revestidos de virtudes. Devemos nos revestir de coragem e determinação para enfrentar a verdade de existir com tudo que a vida traz de bom e ruim. Devemos abrir mão do mágico para nos consagrarmos ao cotidiano. Devemos desistir de ignorarmos os problemas do mundo e agir com mais audácia e com menos do nosso cinismo que insiste em dizer que não temos nada a ver, ou que a responsabilidade é de outros. E enfim, necessitamos urgentemente esvaziar o nosso desejo de reluzir e resgatar a riqueza da simplicidade.

O apóstolo Paulo nos faz um convite a não nos“amoldarmos aos padrões deste mundo”, mas nos transformamos pela renovação da nossa mente, das nossas atitudes, para que sejamos capazes de “experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” ( Romanos 12:2 NVI ). Essa sim é uma grande inquietação: como, a luz do Evangelho, resgataremos e redimiremos as nossas igrejas e comunidades, dando-lhe um aspecto mais humano e mais divino?

Pense nisso

Flavio ( FHCA® )

2 comentários:

Aline disse...

Pense em alguém com a inspiração de Deus para escrever um texto tão bom e verdadeiro, porém, não só escrever...mas viver o que diz. Muito bom Flávio, muito mesmo. Isso é ser igreja!

Um Beijo,
Li

Mayalu Felix disse...

Olá, visitei seu blog e gostei muito do que vi, então coloquei o link na minha lista de "blogs recomendados", no meu blog. Um abraço, parabéns!