quarta-feira, 25 de junho de 2008

Reflexão

Aprendi uma grande verdade: que não teríamos tanta dificuldade de viver num mundo repleto de milagres e manifestações do divino. Acredito que há uma enorme sede no ser humano por manifestações sobrenaturais. Imagine como seria interessante se todos os dias anjos vindo dos céus aparecessem para nós, ou ainda, se o mar se abrisse todos os dias, ou que mortos ressuscitassem a todo o momento, ou se as doenças fossem milagrosamente curadas todos os dias. Com toda certeza nos daríamos muito bem com todas essas coisas.

Se olharmos para a igreja do século XXI, pode-se ver claramente que esta sede está cada vez mais acentuada, e conseqüentemente ela tem sido o estopim para as religiões capitalizarem com ela. Olhando pra dentro do mundo evangélico, vemos que há uma busca desenfreada por apóstolos, bispos, pastores que tem a oração mais forte. Há uma busca por aqueles que se intitulam curadores, abençoadores, bem sucedidos, que não vivem nas periferias do sobrenatural, mais têm mais acesso a Deus, tem mais intimidade. O que observo é que as pessoas querem aprender com eles, o grande segredo de como fazer Deus dar um jeitinho a favor delas lá nos céus.

É lamentável assistir a maioria dos programas “evangélicos” que são exibidos na TV. O que observo é que existe uma disputa entre si, como quem consegue curar mais pessoas, fazer mais milagres, conversar com mais anjos, terem mais revelações sobrenaturais, ou ainda que tem marketing mais eficiente para atrair a maior quantidade de fiéis desesperados por soluções dos seus problemas.

Mais lamentável que isto é saber que este é o modelo de vida cristã que vem sido preconizado. Na verdade eu considero este o maior paradoxo da vida cristã: todos dizem sem reservas que não são dignos da graça de Deus, que é uma demonstração enorme de amor, que não há como pagar por todo esse amor, e por outro lado, exigem as tais “promessas” de Deus. Falam: “não podemos viver esta vida desprezível, temos que ter o melhor, não podemos ser colocados em segundo plano, afinal somos os teus filhos”, e nesta concepção Deus tem que se transformar num ser elitista que vai satisfazer todos os seus caprichos e mimos, que vai ser obrigado a abençoar-me porque "sou filho" não me lembrando que hoje mesmo uma criança vai morrer de fome debaixo de uma ponte em SP, mas afinal "eu sou o filho" . Bahhh.. E os cultos de domingo deixam de ser um momento com Deus, para se um momento em que eu vou criar uma casca que vai proteger a minha vida dos problemas. Não é mais um momento de adoração, mas a forma de esterilizar minha semana para que eu não tenha cáries, para que o pneu do meu carro não fure, ou ainda para que meus inimigos não me alcancem, ou ainda, que a violência não me alcance. Deixa de ser um momento de reflexão na Palavra para se tornar a forma como vou me antecipar a todas as contingências da minha vida pra que quando elas chegarem, não seja tão mal assim.

Concluo que temos um problema crônico, e uma pergunta sempre rebate em minha mente: No que estão transformando o cristianismo? Nos meus 20 anos de caminhada cristã, sou sincero a dizer que não tenho muitas coisas sobrenaturais para contar que aconteceram comigo, aliás, acho que precisaria apenas de uma mão para contá-las, mas diferente do que se prega por ai, não me sinto menos amado por Deus por isso, ao contrário, consigo entender e sentir claramente o amor de Deus por mim, quando ele me dá a possibilidade de desenvolver minha humanidade baseados em princípios, baseados em amor, quando consigo absorver seus ensinamentos e assim me tornar uma pessoa melhor, quando estou triste atolado em problemas e sei que ele está ao meu lado, me encorajando a superá-los com dignidade, e quando tudo dá errado e ele é a motivação que me ajuda a levantar a cabeça, bater a poeira e começar tudo novamente. Sinto-me amado, pois sei que isto é uma decisão unilateral de Deus, não depende do que eu faça, ele me ama e ponto, mesmo que eu não tenha 150 milagres pra contar.

O pr. Ricardo Gondim (uma grande influência pra mim), me ensina duas grandes lições sobre a relação homem x Deus:

1 ) Viva a vida como uma aventura sem garantias
Eu escolho estar com Deus não pelas garantias que ele possa me dar, mas porque a sua dignidade, o seu amor, sua integridade são tão grandes que vale a pena estar com Ele mesmo sem garantias. Entendo que o poder do evangelho não é o que ele pode fazer pra mim e sim o que ele representa e o que ele pode gerar em mim.

2) Deixemos da necessidade de nos provar.
Quando nos tornamos cristãos queremos a todo o momento provar que não somos párias, que temos algum valor, e então sentimos a necessidade de nos provar pra pessoas. É difícil admitir que depois que aceitamos a Jesus, as vezes podemos nos tornar mais pobres, ou nossa empresa pode falir, ou roubaram o meu carro, ou se viajávamos de primeira classe agora viajamos de segunda. Como vou ficar na presença dos meus amigos... o que eu vou dizer... o que vão achar de mim.... Como não conseguimos nos provar apelamos para Deus, tipo: “Eu ando de segunda classe, mais vejo anjos”. O importante saber é que não precisamos nos provar, aliás, o amor e graça são recebidos pela fé. E o que é fé, senão “a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. É evidente que não necessitamos de provas, o exercício da nossa fé já é a totalidade, a quantidade de manifestações sobrenaturais na sua vida não são termômetro para medir o tamanho do seu amor por você. Ele te ama, porque como disse, é uma decisão unilateral de Deus.

Bem termino chamando sua atenção para algo. Não deixe que sua busca desenfreada por resolução dos seus problemas, por milagres, por dinheiro ou bens, seja um empecilho para atrapalhar o seu relacionamento com Deus. Lembre-se que problemas resolvidos geram novos problemas. A vida é assim. Mas, um dia em que não me relaciono com Deus não irá voltar, vai ser uma oportunidade perdida de provar do amor que o levou a cruz na pessoa de Jesus. Deixemos nossa vida religiosa. Cristianismo não é religião, não é um manual de coisas que tenho que fazer para ter uma vida melhor.... não transformemos o cristianismo em algo simplista e religioso. Somos sujeitos a contigências da vida. Mas nosso maior trunfo não é sair dela de uma maneira sobrenatural, mas reconhecer que não estaremos sozinhos, e temos onde repousar e descansar, e que somos livres. Pense nisso

Flavio ( FHCA ® )
I have a dream ( Luther King Jr )

0 comentários: